Quando falamos de línguas indígenas, a primeira coisa que se pensa é que todos os povos falam Tupi.
Isto não está correto. O Tupi é um tronco linguístico e não uma língua. Esta confusão acontece porque muitas palavras do vocabulário brasileiro têm origem nas línguas da família Tupi-Guarani.
Além disso, existe mais de 180 línguas e dialetos indígenas no Brasil!
Você imaginava que eram tantas assim?
O tronco linguístico é um conjunto de línguas que têm a mesma origem. Essa origem é uma outra língua mais antiga, já extinta, isto é, que não é mais falada. Como essa língua de origem existiu há milhares de anos, as semelhanças entre todas as línguas que vieram dela são muito difíceis de ser percebidas.
A família linguística é um conjunto composto por línguas que se diferenciaram há menos tempo. Veja o exemplo do Português.

O Português pertence ao tronco Indo-Europeu e à família Latina.
Você acha que o Português deve se parecer mais com o Francês e o Espanhol, ou com o Russo, o Gaulês ou o Alemão?
Acertou se respondeu com o Francês e o Espanhol; é claro, são da mesma família! Mas… isso não significa que todo mundo que fala Português, entende ou fala, por exemplo, o Francês. E vice-versa. Mas as duas línguas têm muitas semelhanças. Devem ter sido mesmo muito parecidas quando começaram seu processo de diversificação. Se compararmos o Português e o Russo, quase não há semelhanças, as diferenças entre essas duas línguas são enormes! Isso acontece porque, apesar de serem de um mesmo tronco, pertencem a famílias linguísticas diferentes: o Português é da família Latina e o Russo é da família Eslava.Com as línguas indígenas é a mesma coisa!
Há línguas de uma mesma família que têm muitas semelhanças, e existem aquelas que pertencem a famílias linguísticas diferentes e, por isso, não são nada parecidas.
E há, ainda, línguas que pertencem a troncos distintos, aumentando ainda mais a diferença entre elas.
No Brasil, existem dois grandes troncos, o Macro-Jê e o Tupi.
Dentro do tronco Tupi existem 10 famílias lingüísticas e no Macro-Jê, 9 famílias.
Há também 20 famílias que apresentam tão poucas semelhanças que não podem ser agrupadas em troncos lingüísticos.
Para saber o que é um tronco e uma família linguística, veja a pergunta anterior.


Veja as semelhanças e as diferenças entre as palavras!
Família Tupi-Guarani (Tronco Tupi)| Palavras | Língua Guarani Mbyá | Língua Tapirapé | Língua Parintintin | Língua Wajãpi | Língua Geral Amazônica |
| pedra | itá | itã | itá | takúru | itá |
| fogo | tatá | tãtã | tatá | táta | tatá |
| jacaré | djakaré | txãkãré | djakaré | iakáre | iakaré |
| pássaro | gwyrá | wyrã | gwyrá | wýra | wirá |
| onça | djagwareté | txãwãrã | dja´gwára | iáwa | iawareté |
Os Tuyuka vivem no norte da Amazônia, próximos ao rio Negro e ao rio Uaupés.
As crianças tuyuka falam pelo menos duas línguas, o Tuyuka, que é a língua do pai, e a língua da mãe, que costuma ser o Tukano.
Você já ouviu alguma palavra em Tuyuka?
Assista ao vídeo!
Existem muitas palavras, como nomes de coisas, lugares, animais, alimentos, que têm origem nas línguas da família Tupi-Guarani, como aquelas que eram faladas pelos índios Tupinambá e Tupiniquim.
Veja abaixo palavras da língua Tupinambá que foram incorporadas no vocabulário dos brasileiros. Você se surpreenderá!
| Palavras em Tupinambá usadas para nomear lugares, serras e rios | |
| Aratuípe | "no rio dos caranguejos" |
| Comandatuba | "feijoal" |
| Jacareí | "rios dos jacarés" |
| Jundiaí | "rio dos bagres" |
| Pavuna | "lagoa escura" |
| Paraíba | "rio ruim" |
| Sergipe | "no rio dos siris" |
| Una | "rio preto" |
| Araraquara | "formigueiros de arará" |
| Boracéia | "dança" |
| Butantã | "chão dura" |
| Caraguatatuba | "gravatazal" |
| Itaim | "pedrinhas" |
| Ipiranga | "rio vermelho" |
| Itaquaquecetuba | "lugar onde há muita taquara-faca" |
| Jabaquara | "esconderijo de fugitivos" |
| Jaguariúna | "rio preto das onças" |
| Moji-Mirim | "rio pequeno das cobras" |
| Piracicaba | "lugar onde chegam os peixes" |
| Paranapiacaba | "mirante do mar, lugar onde se vê o mar" |
| Ubatuba | "lugar onde há muita cana para flechas" |
| Palavras em Tupinambá usadas para nomear animais e plantas | |
| Aves | Jacu, urubu, seriema |
| Insetos | saúva, pium |
| Peixes | baiacu, traira, piaba, parati, lambari, piranha |
| Répteis | jararaca, sucuri, jabuti, jacaré, jibóia |
| Outros animais | Tamanduá, capivara, jacaré, sagüi, jabuti, quati, paca, cutia, siri, tatu, arara |
| Frutas | abacaxi, cajá, mangaba, jenipapo, maracujá |
| Árvores | copaíba, embaúba, jacarandá, jatobá |
Quadros de significados | |||
| Palavra em Português | Significado em Português | Palavra em Tupinambá | Significado em Tupinambá |
| Pixaim | Cabelo, crespo | Apixa’im | Crespo, enrugado |
| Socar | Bater, pilar | Sók | Pilar, bater com ponta |
| Cutucar | Tocar em outra pessoa para chamar-lhe atenção | Kutúk | Tocar com objeto pontiagudo, ferir |
| Pipoca | Grão de milho estourado | Pípóka | Pele estourada |
| Caatinga | Região árida no nordeste brasileiro | Ka’átínga | mato branco |
| Capim | mato | Kapi’í | Erva |
| Tocaia | Vigia, espreita | Tokáia | Cabana em que o caçador espreita a caça |
É possível, também, encontrar numa mesma aldeia pessoas que só falam a língua indígena, outros que só falam o Português e outros ainda que são multilingues. A diferença de língua não é, geralmente, impedimento para que os povos indígenas se relacionem e casem entre si, troquem coisas, façam festas ou tenham aulas juntos.
Um bom exemplo disso se encontra entre os índios da família linguística Tukano, localizados em grande parte ao longo do rio Uaupés, na fronteira do Brasil com a Colômbia. Muitas pessoas falam de três a cinco línguas, ou mesmo mais!
Por exemplo, a língua Tukano, que pertence à família Tukano, tem uma posição social privilegiada entre as demais línguas dessa família, porque se converteu em língua-franca da região.
Há casos em que é o Português que funciona como língua-franca.
Já em algumas regiões da Amazônia, por exemplo, há situações em que diferentes povos indígenas e populações ribeirinhas falam o Nheengatu, Língua Geral Amazônica, quando conversam entre si.
Aos poucos, o uso dessa língua intensificou-se e generalizou-se de tal forma que a partir do início do século XVIII acompanhou a expansão portuguesa na Amazônia, estendendo o seu uso ao longo de todo o vale do rio Amazonas e afluentes. Subindo pelo rio Negro, a Língua Geral Amazônica alcançou tanto a Amazônia venezuelana como a colombiana.
Essa língua foi aprendida por grande parte dos colonos e missionários, sendo ensinada aos índios nos aldeamentos. Desde o final do século XIX, a Língua Geral Amazônica passou a ser conhecida, também, pelo nome Nheengatu (ie’engatú, “língua boa”).
O Nheengatu passou por muitas transformações, mas continua sendo falado nos dias de hoje, especialmente na região do rio Negro. Além de ser a língua materna da população ribeirinha, ela mantém o caráter de língua de comunicação entre índios e não-índios, ou entre índios falantes de línguas diferentes.
A Língua Geral Paulista teve sua origem na língua dos índios Tupiniquim de São Vicente e do planalto de Piratininga (no atual Estado de São Paulo), que era um pouco diferente da língua dos Tupinambá. No século XVII, já era falada pelos exploradores dos sertões, conhecidos como bandeirantes. Por intermédio deles, a Língua Geral Paulista penetrou no interior de São Paulo, em Minas Gerais, sul de Goiás, Mato Grosso e norte do Paraná.
Por que isso aconteceu?
O Nordeste é a região de colonização mais antiga do Brasil. E é nela que existe o menor número de povos indígenas e de línguas nativas. Exatamente porque foi nessa região que surgiram os primeiros aldeamentos missionários.
Os aldeamentos eram locais onde se fazia a catequese dos índios (educação religiosa). Nos aldeamentos, diferentes grupos indígenas eram obrigados a viver juntos e, para isso, tinham que abandonar seus territórios tradicionais, suas línguas e tradições culturais. Os missionários tentavam a todo custo a conversão dos indígenas ao catolicismo e ao jeito de ser do colonizador.
Foi um longo e violento período no qual muitos povos indígenas foram escravizados e maltratados, sofrendo com a fome, as doenças transmitidas pelos não-índios, a discriminação e o preconceito. Suas práticas culturais eram muitas vezes proibidas e perseguidas. Por causa dessa forte pressão sobre os seus modos de vida, muitos povos foram extintos e outros foram deixando de valorizar suas tradições e sua língua nativa.
Porque cada língua reúne um conjunto de conhecimentos de um povo, saberes únicos. Assim a perda de qualquer língua é, antes de tudo, uma perda para toda a humanidade.
Línguas Brasileiras – para o conhecimento das línguas indígenas (1986)
Vitalidade da língua e línguas em perigo de extinção (2003)