Ao longo de toda vida as pessoas passam por muitos aprendizados. Aprende-se dos mais diferentes jeitos e em vários momentos. O que se aprende e com quem se aprende também é muito diverso em cada lugar.
As crianças indígenas, por exemplo, aprendem muita coisa com seus pais e parentes mais próximos, como os irmãos e os avós. Os conhecimentos podem ser transmitidos durante as atividades do dia-a-dia ou em momentos especiais, durante os rituais e as festas.
É principalmente na relação com seus parentes que as crianças aprendem. Caminham junto com eles, observam atentamente aquilo que os mais velhos estão fazendo ou dizendo; acompanham seus pais até a roça; vão pescar com os adultos e brincam muito! Cada brincadeira é um jeito de aprender uma habilidade que será importante no futuro, como saber caçar, pescar, fazer pinturas no corpo, fabricar arcos e flechas, potes, cestos... É por meio destes processos de aprendizagem que as crianças aprimoram as técnicas necessárias para realizar tais atividades.
Na convivência com os mais velhos, aprende-se o jeito certo de se comportar e de se relacionar com todos da família e do grupo. Dessa forma as crianças aprendem, por exemplo, quem são as pessoas que devem ser tratadas como irmãos e irmãs, como tios e tias, com quem poderão se casar no futuro... Dessa maneira vão entendendo qual a sua importância na comunidade.
Pouco a pouco, as crianças aprendem os modos de agir, os princípios e tudo aquilo que é importante para que se tornem pessoas produtivas e participativas. Para isso é muito importante estarem sempre atentas aos trabalhos diários e ao aprendizado e transmissão de conhecimentos.
Sim, muitas aldeias têm escola! Como se sabe, a maioria das aldeias fica dentro de Terras Indígenas, assim cada Terra pode ter uma ou mais escolas. Isso vai depender de seu tamanho e da situação de cada comunidade.
As escolas indígenas, assim como aquelas dos não-índios, também são um espaço de aprendizado das crianças. Muitas vezes o conteúdo que é ensinado ali pelos professores é bem diferente daquele que é transmitido pelos parentes na aldeia. É claro que estes conteúdos podem se misturar em alguns momentos, mas a escola tem como foco ensinar a escrever, ler, fazer conta, entre outros conhecimentos importantes para o diálogo com o mundo dos não-índios, já os parentes ensinam as formas de se organizar da comunidade, como produzir artefatos e tudo aquilo que é importante para se viver bem naquele grupo.Além disso, o conteúdo que se aprende nas escolas indígenas é diferente daquele das escolas dos não-índios. Isso porque os povos indígenas têm direito a ter uma escola diferenciada, isto é, uma escola que ensine conteúdos que se relacionem com a cultura e a língua de cada povo. Mas nem sempre esses direitos são respeitados. Muitas vezes, os professores e os livros usados nas escolas indígenas falam de assuntos que não estão ligados ao cotidiano das comunidades indígenas e ensinam o ponto de vista dos não-índios como o único ponto de vista correto.
A história da educação nas escolas indígenas no Brasil mostra que, de um modo geral, a escola buscou integrar as populações indígenas à sociedade à sua volta, ou seja, fazer com que eles fizessem parte dela. Mas a “integração” era, na verdade, uma tentativa de faz com que os índios vivessem como os não-índios, ensinando-os a falar, ler e escrever em Português, a língua oficial do país. Somente há pouco tempo línguas indígenas passaram a ser usadas na escola.
Nos anos 90 surgiram novos modelos de escola indígena preocupados em respeitar as diferentes culturas, especialmente as línguas. Assim, a escola passou a ser um espaço que estimula e fortalece o uso das línguas indígenas.
Foi a partir desse momento que os próprios índios se tornaram professores nas escolas das aldeias e a língua indígena passou a ser utilizada em sala de aula. Os conteúdos tratados nos cursos foram adaptados pelos próprios índios para dialogar melhor com a realidade vivida por cada comunidade.
A escola indígena além de ensinar a ler, a escrever, a fazer conta e todos os conteúdos que os não-índios aprendem, também passou a incluir os conhecimentos locais na sala de aula. Os alunos aprendem, por exemplo, como usar os recursos naturais e cuidar do ambiente e do território onde vivem, aprendem sobre a história de seus antepassados, seus mitos etc. Além disso, seu calendário escolar é diferente, pois respeita as festas e rituais locais.
Esse novo modelo de educação ajuda a valorizar a língua, e também todo o modo de ser do grupo indígena que a criança pertence, isso porque ela aprende conteúdos que se referem à sua vida e a vida de sua comunidade.
Mesmo tendo aulas na língua indígena é muito importante aprender o português na escola. Saber falar a língua portuguesa é uma das maneiras que os povos indígenas têm para se comunicar com diferentes pessoas, interpretar e compreender as leis que orientam a vida no país, principalmente aquelas que dizem respeito aos direitos dos índios. Afinal todos os documentos necessários para se viver na sociedade brasileira são escritos em Português.
O aprendizado da escrita em Português tem, para os povos indígenas, funções muito claras: dá chance de defenderem seus diretos e acesso ao conhecimento de outras sociedades.
O aprendizado entre os Xavante é um processo que acontece ao longo de toda a vida, desde quando se é criança até a velhice. Em cada etapa deste longo caminho, novos conhecimentos são adquiridos nas mais diferentes situações: algumas são entendidas como momentos de aprendizagem (como é o caso dos rituais), outras estão relacionadas com as pequenas atividades realizadas no dia-a-dia.
As situações mais cotidianas são momentos de aprendizagem valorizados pelos A’uwé. As crianças costumam caminhar livres pela aldeia acompanhando outras pessoas (sejam crianças, velhos ou adultos) em suas atividades e são nestas ocasiões que elas aprendem a identificar as regras que orientam sua sociedade.
As tarefas domésticas são aprendidas no cotidiano. Ao mesmo tempo em que ajudam seus parentes a tomar conta do irmão, lavar roupa, levar e trazer recados, preparar comidas, as crianças brincam e se divertem. Assim o aprendizado vai acontecendo aos poucos.
A brincadeira é um jeito de aprender. Os meninos, por exemplo, aprendem a fazer arcos e flechas desde pequenos e brincam ao redor da casa imitando caçadores e bichos. Vão aperfeiçoando a maneira de fazer os objetos e assim, quando forem adultos, conseguirão fazer arcos e flechas bonitos e bons para caçar, além de desenvolverem as habilidades físicas para se tornarem bons caçadores.
As crianças xavante costumam repetir muitas vezes a mesma brincadeira, buscando novas possibilidades e desafios a cada repetição. Dessa forma melhoram suas habilidades e aprendem suas possibilidades e do mundo à sua volta. Brincar de casinha é um bom exemplo disso. Ao construir com o barro uma casa em miniatura, imitam as divisões internas de sua própria casa e assim a criança xavante reflete sobre a organização doméstica e os espaços da aldeia, e aprofunda o conhecimento que tem sobre sua comunidade.
Os rituais são importantes situações de aprendizagem. Nestes momentos todo mundo aprende: os jovens aprendem mais sobre os valores, princípios e modos de agir do seu grupo e os adultos aprendem com os mais velhos todos os detalhes da realização de um ritual.
Estes momentos buscam enfatizar as divisões e as regras sociais xavantes e fixar os conhecimentos sobre as mesmas. Têm por objetivo marcar períodos de amadurecimento, de passagem de uma fase da vida para outra, da fase de criança para a idade adulta, por exemplo. Nos rituais de passagem aprende-se como agir socialmente: o que a comunidade espera, quais atitudes se deve ter dali para frente. Os rituais têm objetivos concretos como demonstrar que aqueles meninos já conseguem enfrentar desafios físicos, que conhecem importantes cantos, que já fazem parte dos sistemas de troca a’uwé etc.
Além dessas situações de aprendizado, os Xavante também valorizam a educação escolar, pois percebem que é um importante instrumento para a compreensão do mundo fora da aldeia, além de permitir o domínio de conhecimentos e tecnologias específicas dos não-indígenas.
Os Yudja, até pouco tempo conhecidos como Juruna, falam uma língua do tronco Tupi. Yudja em seu idioma quer dizer "donos do rio".
Habitam na beira do rio Xingu, no Mato Grosso, e também perto da foz do rio próximo à cidade de Altamira, no Pará. Eles chamam a atenção por terem uma pintura corporal muito bonita, muitas músicas e festas, por gostarem de tomar caxiri (bebida feita de mandioca) e fazerem canoas e panelas de cerâmica.
Os Yudja, aproximadamente 416 pessoas, vivem hoje divididos em 6 aldeias: Paksamba, Pequizal, Tuba Tuba, Mupadá, Paruredá e Pakaya.
O texto abaixo foi produzido pelos alunos e professores da escola Yudja.
A educação yudja é desenvolvida pra formar para o trabalho e para o bom comportamento. A pessoa aprende através da prática, acompanhando alguma atividade, olhando e ouvindo com atenção, imitando o jeito de fazer ou mesmo brincando de fazer como os adultos. A pessoa tem que ser curiosa também e perguntar com interesse de aprender.
Os pais aconselham seus filhos à noite, durante conversas antes de dormir, contanto histórias antigas que educam.
Durante o desenvolvimento da pessoa, quando a criança começa a andar e falar, nós a chamamos ali. Nessa fase os pais pedem as coisas à criança para pegar alguma coisa, passar um recado ou chamar uma pessoa na outra casa, só para os pais verificarem se aquela criança já entende o que foi pedido.
Mas para alguns trabalhos existem regras e só é permitido fazer a partir de mais ou menos 10 anos de idade. Quando essa pessoa se torna iparaha (jovem), ela passa por uma preparação durante o período de reclusão, onde ela fortalece e aprofunda seu conhecimento sobre as histórias, comportamento, remédios especiais que ela toma para crescer saudável e as atividades para o trabalho como: fazer cerâmica, tecelagem, pinturas, receitas de comida, plantio de alimentos, roçadas, fazer casa, caçar, pescar e outras atividades.
Assim ela se prepara para quando se casar, passar esse conhecimento para seus filhos.
A educação na escola deve caminhar junto com a educação tradicional do povo Yudja. A escola deve ensinar a escrita e a fala do não-índio para se comunicar com falantes de outras línguas, também deve ensinar a escrita de nossa língua e fortalecer nossa cultura.
Todos devem participar da escola: alunos, pais de alunos, professores, idosos, crianças, adultos, jovens, toda a comunidade.
No texto abaixo, retirado do livro Ecologia, Economia e Cultura (2005), eles contam o que aprendem com os mais velhos.
Os valores são ensinados pelos velhos, pelos avós e pelos pais desde criança. Ensinar a respeitar as pessoas, ter bom comportamento, caçar, pescar, saber dar valor à natureza e à vida humana. Saber tratar os convidados e as famílias mais próximas e distantes. Ensinar a fazer artesanato, respeitar cada animal e outros seres que existem na natureza. Ser generoso, honesto com os seres humanos. Seguir as regras dos mais velhos, das coisas que eles nos ensinam. Respeitar lugares e objetos que têm suas histórias contadas pelos mais velhos.
Existem lugares e objetos sagrados, principalmente o lugar e os objetos de reza do pajé, como o apito feito com o osso de ave, o cigarro e as ervas. Muitas pessoas respeitam e consideram os próprios pajés como pessoas sagradas. As montanhas e as lagoas que têm sua história contada pelos mais velhos, também são sagradas.
No tempo e no espaço: brincadeiras das crianças A’uwe-Xavante, do livro Crianças Indígenas: ensaios antropológicos(2002).
Entre o canto e a caneta: oralidade, escrita e conhecimento entre os Guarani Mbya(2008).
Ecologia, Economia e Cultura - livro 1 (2005).
Projeto Político Pedagógico Povo Yudjá, aldeia Tuba Tuba (2008).